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domingo, 25 de janeiro de 2015

Socialismo? Não, obrigado.

Certa vez, assistindo a uma palestra sobre finanças pessoais, ouvi o seguinte argumento: uma das maiores desgraças que pode acontecer a um ser humano é a ruína financeira. Depois de refletir sobre isso, conclui que o palestrante estava certo. E praticamente todas, ou quase todas, as pessoas em uma economia capitalista estão submetidas a esse risco. Coincidentemente, há uns dias, encontrei um amigo, que eu não via há anos. E, infelizmente, essa era a sua situação. É verdade que esse meu amigo fez algumas bobagens na vida, mas acho que não merecia estar sofrendo tanto assim. Normalmente, nessas situações, tenho uma tendência a pensar que o mundo é cruel, que o modelo capitalista é injusto e que as coisas deveriam ser diferentes. Então fico maquinando na minha cabeça como seria essa outra sociedade. E minha conclusão final é sempre a mesma. O capitalismo, com todas suas mazelas, é o melhor modo de produção já criado pelo homem.


Socialismo: tô fora

Primeiramente, temos de entender que o capitalismo surgiu a partir a evolução natural das forças produtivas. Diferentemente do socialismo, a economia de mercado não foi inventada por alguém, ela não é produto da mente de algum intelectual iluminado. Capitalismo não é utopia, é fruto da vida prática, do trabalho diário, do cotidiano e das tradições. Ele se constitui em um conjunto de práticas, valores e costumes criado por pessoas comuns. Esse conjunto de valores econômicos, políticos e institucionais está sendo continuamente testado e aprimorado num processo quase que darwiniano. Práticas eficientes permanecem e ineficientes são (quase sempre) naturalmente eliminadas. O capitalismo também não é imposto através de uma revolução abrupta e violenta. Ele é resultado de uma lenta evolução. Diferentemente dos socialistas que alegam que a violência é a parteira da história, os defensores da economia de mercado são amantes da paz.

Somente uma economia de mercado pode ser livre. Trocar mercadorias é algo natural, quase tão natural quanto trocar palavras. Colocar restrições ao funcionamento de uma economia de mercado é algo opressor, é quase tão opressor quanto proibir as pessoas de conversar, de trocar palavras. Além de trocar mercadorias, muitas pessoas têm o sonho de empreender um negócio. Impedir as pessoas de tentar realizar esse sonho também é um tipo de opressão. Somente em países capitalistas, as pessoas são livres para empreender.

No socialismo, a economia de mercado é substituída pela planificação econômica. Economias planificadas, além de menos eficientes do ponto de vista produtivo, são necessariamente autoritárias. Vejamos um exemplo. Suponha que em um país socialista os governantes (planificadores econômicos) sejam amantes das artes e concluam que o país deve ter mais teatros e museus. Por mais que eu goste de artes, tenho de admitir que essa decisão de construir mais teatros e museus é obviamente autoritária. Em uma economia de mercado, os consumidores escolhem, através de suas decisões de compra, os produtos que devem ser ofertados no mercado. Eu, particularmente, não aprecio muito a música popular que é feita hoje no Brasil. Mas entendo que esses artistas fazem sucesso porque o público (mercado) os consagrou. Por mais que eu não goste desses artistas, acho essa situação preferível a uma outra em que um poder central determine que tipo de música devemos ouvir.

Uma economia de mercado é fundamentada no conceito de propriedade privada. A riqueza de cada indivíduo, por sua vez, é fruto de seu trabalho, empenho e dedicação num momento passado. O desrespeito à propriedade privada é a legitimação do roubo. No socialismo, a propriedade privada é substituída pela propriedade pública. Esse coletivismo compulsório é uma violação à propriedade privada e a aceitação do roubo como instrumento de política econômica.

Críticos do capitalismo alegam que uma economia de mercado produz grandes desigualdades. Isso é verdade, porém essa desigualdade é uma das forças do capitalismo. A desigualdade acentua a competição e a busca por aumentos de produtividade. Uma sociedade igualitária levaria as pessoas a uma situação de acomodação e, consequentemente, à estagnação econômica.

Outro equívoco: socialistas tendem a interpretar o capitalismo como um jogo de soma zero. Ou seja, um jogo, em que, para alguns ganharem mais, outros têm de ganhar menos. Essa é uma visão equivocada. O capitalismo é, na verdade, um jogo de soma positiva, todos saem ganhando. Capitalistas e trabalhadores não deveriam ser vistos como inimigos, mas sim como aliados. Quanto mais o capitalista ganha dinheiro, mais pessoas ele pode contratar e mais salários ele pode pagar. Quanto mais o capitalista fica rico, mais a nação como um todo enriquece também.

O socialismo foi capaz de produzir igualdade, mas nunca, e em nenhuma parte do mundo, conseguiu gerar riqueza. Pessoas pobres em uma economia capitalista desenvolvida são mais ricas que um cidadão médio de uma economia socialista. Os socialistas do presente, bem como os do passado, são pessoas ressentidas, que acham que não têm o rendimento merecido e, por isso, querem impor a todos um igualitarismo forçado.

Voltando ao meu amigo falido, não há muito o que fazer. Em uma economia de mercado, pessoas talentosas, inteligentes, capazes, empreendedoras conseguem ganhar mais dinheiro que as que não têm esses mesmos atributos. O capitalismo pune os perdedores. Pode ser darwiniano, pode ser cruel, mas é também necessário. Essa punição é o preço da eficiência e da geração de uma riqueza crescente a ser dividida (desigualmente) por todos. Na realidade, o problema da repartição da renda, continua sendo um dos pontos mais nevrálgicos do capitalismo. Mas esse assunto fica para um próximo post. Podemos pensar em mudar o capitalismo, reformá-lo, torná-lo mais igualitário e mais justo. Mas jamais em abandoná-lo. E, com relação ao socialismo, digo simplesmente o seguinte: muito obrigado, mas não estou interessado.


The Soviet Story

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Adam Smith e a natureza humana

Bill Gates está doando sua fortuna. Dizem os jornais que ele vai deixar apenas quinze por cento de seu patrimônio para os filhos, o restante irá para instituições de caridade, centros de pesquisa, universidades e coisas do gênero. Seria justo dizer que o fundador da Microsoft é uma pessoa egoísta? Vejamos. Segundo Adam Smith, fundador da Ciência Econômica moderna, todos nós somos essencialmente egoístas. No seu famoso livro, A Riqueza das Nações, Smith diz que não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que ele espera obter o seu jantar, mas sim dos sentimentos egoístas que movem esses indivíduos. É dessa forma que funciona uma economia de mercado: milhares ou milhões de pessoas agindo de forma interesseira, mas involuntariamente e inconscientemente gerando bem estar para a sociedade. Smith percebeu as possibilidades gigantescas de produzir riqueza daquele novo sistema que estava surgindo no final do século XVIII e que hoje nós nos habituamos a chamar simplesmente de capitalismo. Mas será que esse sistema é eficiente? Milhões de pessoas tomando decisões isoladamente parece algo meio caótico. Isso poderia gerar grande abundância em alguns setores e escassez em outros. Smith assegurava que não, que os mercados tinham poder de se auto-ajustarem. A essa crença de que os mercados funcionam de maneira eficiente e harmoniosa, sem a intervenção estatal, passamos com o tempo a chamar de liberalismo.

Bill Gates: bilionário e filantropo

Mas voltemos à questão inicial. Seria justo dizer que Bill Gates é uma pessoa egoísta? De acordo com a teoria de Smith, sim. Gates, ao fundar a Microsoft, muito provavelmente não estava visando ajudar pessoas através da informática. Ele, muito possivelmente, queria ficar rico, talvez rico e famoso, somente isso e mais nada. Mas mesmo assim, agindo de forma interesseira e egoísta, ele acabou dando um impulso gigantesco à informática, principalmente devido à criação do sistema operacional Windows e dos aplicativos do MS Office. Gates foi, portanto, guiado por uma “mão invisível” a proporcionar um enorme benefício à sociedade, coisa que talvez nunca tenha passado pela sua cabeça. Mas o que explica o Bill Gates filantropo? Primeiramente, temos de levar em consideração que os impostos sobre herança nos Estados Unidos são bastante elevados. Norte-americanos, de um modo geral, são diferentes dos escandinavos e não se simpatizam muito com essa idéia de um governo social-democrata, que cobra muitos impostos e devolve muitos serviços públicos. Norte-americanos tendem a ver governos como instituições corruptas e ineficientes. Se boa parte da herança de Gates vai inexoravelmente cair nas mãos do governo, melhor gastar esse dinheiro de forma cuidadosa e eficiente antes que isso aconteça.

Outro fator que explica a generosidade de Gates é que o dinheiro pode aumentar muito o bem estar dos pobres e pouco o bem estar dos muito ricos. Para quem não tem uma casa, ter um ganho monetário que lhe permita comprar um imóvel é um grande fator de aumento de felicidade e bem-estar. Para os muito ricos, as coisas não funcionam dessa maneira. Se um indivíduo tem cinco mansões, uma sexta mansão não vai trazer tanta felicidade assim. Uma sétima, menos ainda. Numa linguagem que só os economistas conseguem entender, o dinheiro tem utilidade marginal decrescente, simplesmente isso.

Finalmente, vem a terceira razão. Ao deixar apenas quinze por cento de sua fortuna para seus filhos, Gates talvez esteja querendo protegê-los de comportamentos indesejáveis. Uma pessoa imatura com muito dinheiro em mãos pode se enveredar pelo caminho da auto-destruição. Apesar de todos esses entretantos, tenho um profundo respeito por Gates e outros bilionários americanos que têm doado parte de suas fortunas. Seria muito bom que esse exemplo fosse seguido por magnatas do mundo inteiro. Mas cabe deixar claro: a filantropia de Gates não refuta a teoria de Smith sobre a natureza dos homens. Nós, seres humanos, somos essencialmente egoístas.