Certa vez
um amigo meu marxista-comunista-esquerdista me enviou um e-mail com link para
uma reportagem. Tratava-se de um estudo feito nos Estados Unidos relacionando
inteligência e posicionamento ideológico. De acordo com essa pesquisa, as
pessoas de esquerda são em média mais inteligentes que as pessoas de direita.
Meu amigo adorou. Provavelmente, ele deve ter pensado. Se as pessoas de
esquerda são mais inteligentes, eu, como sou de extrema esquerda, devo ser
muito inteligente, inteligentíssimo, talvez um gênio. Tive, então de explicar a
ele que as coisas não são bem assim.
Ser de
esquerda ou de direita são coisas completamente diferentes no Brasil e nos
Estados Unidos. As pessoas de direita, nos Estados Unidos, são a favor do
livre-mercado e estão sempre dispostas a reduzir impostos e o tamanho do
Estado. Também tendem a ser mais religiosas e conservadoras em relação a certas
questões de ordem moral como casamento gay, legalização do aborto, legalização
do comércio de drogas etc. Os esquerdistas também são a favor do livre mercado,
mas aceitam pagar mais impostos para ter um Estado mais atuante, sobretudo na
área social. São menos religiosos e mais abertos em relação a questões
relacionadas a liberdades individuais.
No Brasil,
e em parte da América Latina, o nível da discussão está mais ou menos um século
atrasada. As pessoas de esquerda defendem o Estado produtor e, portanto, são
contra as privatizações. Alguns são contra a livre iniciativa e defendem a
socialização dos meios de produção, experiência essa que deu errado em todas as
partes do mundo onde foi aplicada. Os intelectuais que defendiam essas idéias
nos Estados Unidos, até início dos anos 1990, eram chamados de radicais e não
de esquerdistas. Como essa turma já morreu e não deixou sucessores, acredito
que esse termo nem esteja mais sendo utilizado por lá.
Vejamos um
exemplo do pensamento político na América do Norte. O filósofo John Rawls (1921-2002) é
considerado um ícone do pensamento de esquerda nos Estados Unidos. Aqui no
Brasil, algumas pessoas o consideram de direita. Por essa razão que busco
evitar esses termos, direita e esquerda. Cada pessoa tem um entendimento
diferente do que esses conceitos significam e isso impossibilita ou pelo menos
dificulta o diálogo. Mas voltemos ao pensamento de Rawls. Esse filósofo tentou
elaborar uma teoria sobre a justiça e concluiu que uma sociedade mais
igualitária é também uma sociedade mais justa.
John Rawls: filósofo político
Para
entender como isso funciona, vamos fazer um exercício de imaginação. Suponhamos
que nós estamos em uma sala de espera. Nós ainda não nascemos, mas vamos
nascer. Nós sabemos como o mundo é, mas não sabemos em que condições iremos
nascer. Nós sabemos, por exemplo, o que é pobreza, desigualdade, violência,
preconceito, racismo, homofobia etc. Mas nós não sabemos como vamos nascer.
Podemos nascer homem ou mulher, rico ou pobre, preto ou branco, heterossexual
ou homossexual, inteligente ou desprovido de inteligência etc. Se tivéssemos de
fazer essa escolha, sob o “véu da ignorância”, provavelmente escolheríamos
nascer em uma sociedade com menos desigualdade. Pelo menos pessoas ocidentais e
com um nível de instrução razoável, tendem a fazer essa escolha. A conclusão é
muito simples. Uma sociedade mais igualitária é também uma sociedade mais
justa.
Vejamos um
exemplo. Homens com um talento fantástico para o futebol e mulheres
extremamente bonitas tendem a ganhar mais dinheiro no mercado que jogadores
pernas de pau e mulheres feias. Será que isso é justo ou o governo deveria
interferir nesse mercado e tornar os resultados menos desiguais? Se você
responder sim, você é de esquerda. Se responder não, é de direita. Considero
esse um debate de alto nível. Mas infelizmente a discussão não atingiu esse patamar
no Brasil. Ainda estamos debatendo o que é melhor para o país, uma economia de
mercado ou a estatização dos meios de produção. Em outras palavras, ainda
estamos discutindo qual o melhor formato para uma roda. Deve ela ser redonda,
ou deveria ser quadrada?
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