quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Senior e os salários

A China já é a segunda maior economia do mundo e ninguém duvida de que, em mais alguns anos, será primeira. Qual o segredo do dinamismo econômico chinês? Pode-se dizer que é um conjunto de fatores que fazem da China um país muito amigável ao investimento privado. Isso tem a ver com o custo da mão-de-obra, qualidade da infra-estrutura, segurança jurídica etc. A economia chinesa vai bem, mas o povo nem tanto. Os trabalhadores chineses trabalham muito, ganham pouco e têm poucos benefícios sociais. Será que esse é o preço do desenvolvimento ou as coisas poderiam ser diferentes?

Trabalhadores chineses: sacrifício intergeracional

No século XIX, o economista inglês Nassau Senior concluiu que reivindicações trabalhistas eram uma ameaça ao capitalismo. Todos nós sabemos que salários são preços e a maioria dos preços se forma no mercado. Mas, talvez com os salários, as coisas não sejam exatamente assim. Adam Smith, proeminente defensor do liberalismo, dizia que os salários se formavam através de um conflito de classes. E essa não era uma luta entre iguais, os capitalistas tinham mais recursos financeiros, capacidade de influenciar o governo e a opinião pública e por isso, quase sempre, levavam vantagem.

Quando Senior começou a estudar Economia, tinha uma visão otimista em relação ao futuro da classe trabalhadora. Ele recusou a Teoria da População de Malthus. Acreditava que ganhos de produtividade na agricultura e o aprimoramento moral da classe trabalhadora conduziriam os pobres a uma situação de maior prosperidade. Porém, nas décadas de 1820 e 1830, um fato fez Senior mudar radicalmente suas idéias. Nesse período, ocorreram violentas revoltas de trabalhadores. Senior ficou assustado com o que estava ocorrendo e concluiu que a fúria e a ignorância da classe trabalhadora poderiam destruir o capitalismo inglês.

No século XVIII, alguns economistas já diziam que a economia está submetida a certas “leis naturais”. Por exemplo, preços se formam de acordo com a lei da oferta e demanda. Se governo ir contra essa lei e tentar fixar preços, pode gerar excessos de oferta ou escassez de determinado produto. Quem se lembra do Plano Cruzado, em 1986, sabe bem do que estou falando: preços congelados, racionamento e prateleiras vazias nos super mercados. Muito bem, a ideia de Sênior é muito fácil de entender. Os salários se formam de acordo com uma “lei natural”, que pode inclusive ser expressa através de uma equação matemática bem simples:

salários = fundo de salários / número de trabalhadores  

Essa teoria ficou conhecida como Doutrina do Fundo de Salários. Os salários se formam através de uma regra matemática e não através da luta social ou política como pressupunha Smith. Reivindicações trabalhistas tendem apenas a prejudicar o bom funcionamento da economia. A única forma de aumentar salários seria através de um aumento do fundo de salários (o recurso que a empresa dispõe previamente para pagar empregados) ou redução do número de trabalhadores. Como reduzir o número de trabalhadores não é algo possível ou até mesmo desejável no curto prazo, a solução é aumentar o fundo de salários. Isso aconteceria através de mais liberdade para atuação das empresas e redução ou extinção das leis de combate a pobreza. Essas ações trariam mais vigor ao capitalismo e possibilitariam aumento dos salários no longo prazo.

A teoria de Senior está correta na sua essência, mas uma observação tem de ser feita. Se a China continuar crescendo e tornar-se uma nação rica, beneficiará as gerações futuras em detrimento da geração atual. Em outras palavras, a geração presente tem de se sacrificar para que as próximas gerações possam usufruir desse benefício. Será que todos os chineses estão dispostos a realizar esse sacrifício? Será que esse modelo seria exequível em uma democracia, ou revoltas de trabalhadores destruiriam o capitalismo chinês? Como não compactuo com ditaduras, acho que o povo deveria gozar da liberdade de se manifestar contra ou a favor desse modelo de desenvolvimento. E, como acredito na teoria de Smith de que as pessoas são essencialmente egoístas, concluo que o modelo de desenvolvimento chinês não funcionaria num regime democrático. Todos sabemos que os regimes autoritários são muito eficientes para conseguir colocar em prática uma política econômica, seja ela boa ou ruim. A China é um excelente exemplo disso.

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