A China já
é a segunda maior economia do mundo e ninguém duvida de que, em mais alguns anos, será primeira. Qual o segredo do dinamismo econômico chinês? Pode-se dizer
que é um conjunto de fatores que fazem da China um país muito amigável ao
investimento privado. Isso tem a ver com o custo da mão-de-obra, qualidade da infra-estrutura,
segurança jurídica etc. A economia chinesa vai bem, mas o povo nem tanto. Os
trabalhadores chineses trabalham muito, ganham pouco e têm poucos benefícios
sociais. Será que esse é o preço do desenvolvimento ou as coisas poderiam ser
diferentes?
Trabalhadores chineses: sacrifício intergeracional
No século
XIX, o economista inglês Nassau Senior concluiu que reivindicações trabalhistas
eram uma ameaça ao capitalismo. Todos nós sabemos que salários são preços e a
maioria dos preços se forma no mercado. Mas, talvez com os salários, as coisas
não sejam exatamente assim. Adam Smith, proeminente defensor do liberalismo,
dizia que os salários se formavam através de um conflito de classes. E essa não
era uma luta entre iguais, os capitalistas tinham mais recursos financeiros, capacidade de
influenciar o governo e a opinião pública e por isso, quase sempre, levavam
vantagem.
Quando Senior
começou a estudar Economia, tinha uma visão otimista em relação ao futuro da
classe trabalhadora. Ele recusou a Teoria da População de Malthus. Acreditava que
ganhos de produtividade na agricultura e o aprimoramento moral da classe
trabalhadora conduziriam os pobres a uma situação de maior prosperidade. Porém,
nas décadas de 1820 e 1830, um fato fez Senior mudar radicalmente suas idéias.
Nesse período, ocorreram violentas revoltas de trabalhadores. Senior ficou
assustado com o que estava ocorrendo e concluiu que a fúria e a ignorância da
classe trabalhadora poderiam destruir o capitalismo inglês.
No século
XVIII, alguns economistas já diziam que a economia está submetida a certas
“leis naturais”. Por exemplo, preços se formam de acordo com a lei da oferta e
demanda. Se governo ir contra essa lei e tentar fixar preços, pode gerar
excessos de oferta ou escassez de determinado produto. Quem se lembra do Plano
Cruzado, em 1986, sabe bem do que estou falando: preços congelados,
racionamento e prateleiras vazias nos super mercados. Muito bem, a ideia de
Sênior é muito fácil de entender. Os salários se formam de acordo com uma “lei
natural”, que pode inclusive ser expressa através de uma equação matemática bem
simples:
salários =
fundo de salários / número de trabalhadores
Essa teoria
ficou conhecida como Doutrina do Fundo de Salários. Os salários se formam
através de uma regra matemática e não através da luta social ou política como
pressupunha Smith. Reivindicações trabalhistas tendem apenas a prejudicar o bom
funcionamento da economia. A única forma de aumentar salários seria através de um aumento do
fundo de salários (o recurso que a empresa dispõe previamente para pagar
empregados) ou redução do número de trabalhadores. Como reduzir o número de
trabalhadores não é algo possível ou até mesmo desejável no curto prazo, a
solução é aumentar o fundo de salários. Isso aconteceria através de mais
liberdade para atuação das empresas e redução ou extinção das leis de combate a
pobreza. Essas ações trariam mais vigor ao capitalismo e possibilitariam aumento dos
salários no longo prazo.
A teoria de
Senior está correta na sua essência, mas uma observação tem de ser feita. Se a
China continuar crescendo e tornar-se uma nação rica, beneficiará as gerações
futuras em detrimento da geração atual. Em outras palavras, a geração presente
tem de se sacrificar para que as próximas gerações possam usufruir desse
benefício. Será que todos os chineses estão dispostos a realizar esse
sacrifício? Será que esse modelo seria exequível em uma democracia, ou revoltas
de trabalhadores destruiriam o capitalismo chinês? Como não compactuo com
ditaduras, acho que o povo deveria gozar da liberdade de se manifestar contra
ou a favor desse modelo de desenvolvimento. E, como acredito na teoria de Smith de
que as pessoas são essencialmente egoístas, concluo que o modelo de
desenvolvimento chinês não funcionaria num regime democrático. Todos sabemos
que os regimes autoritários são muito eficientes para conseguir colocar em
prática uma política econômica, seja ela boa ou ruim. A China é um excelente
exemplo disso.
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