segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Por que o Afeganistão não é Cingapura?

Um leitor disse que meu último post, Terrorismo e o colonialismo europeu, não está muito bom porque falta explicar por que algumas ex-colônias de potências capitalistas progrediram tanto (Cingapura, Hong Kong, Coréia do Sul, etc), enquanto outras se transformaram em nações falidas (Afeganistão, Somália, Paquistão etc.). Esse é um problema muito complexo. Existem teorias e mais teorias sobre desenvolvimento econômico. Vou aqui fazer uma análise (infelizmente meio superficial) centrada em três elementos: geografia, história e ideologia.

Afeganistão: essa ideologia não ajuda

Vamos começar pelo primeiro, geografia. Nações cuja localização favorece o comércio com o resto do mundo tendem a se desenvolver mais. Nações isoladas, tendem a permanecer estagnadas. Todos sabemos que, durante a Idade Média, houve uma ruralização da Europa. Os feudos eram praticamente auto-suficientes e o comércio era insignificante. Essa situação começou a mudar por volta do século XII. Nesse período, há um despertar do comércio e as cidades italianas, principalmente Veneza, passaram a monopolizar o comércio de produtos vindos do Oriente. Em função disso, Veneza se transformou na cidade mais rica da Europa. Tudo isso mudou quando os portugueses descobriram uma nova rota comercial para as Índias. O comércio se deslocou do Mediterrâneo para o Atlântico, e Antuérpia sucedeu Veneza, transformando-se em principal centro comercial da Europa.

Por outro lado, sabemos também que ainda existem povos vivendo na pré-história, em pleno século XXI. Estou me referindo aos ianomâmis, que vivem cravados dentro a floresta amazônica, na fronteira entre o Brasil e a Venezuela. E aos diversos povos que habitam as florestas tropicais de Papua Nova Guiné. É evidente que esses povos são atrasados do ponto de vista econômico porque estão isolados, não têm intercâmbio com o resto do mundo. Resumindo, integração econômica tende a gerar desenvolvimento.

Vamos agora falar de história. A União Soviética se desmantelou no começo dos anos 1990. Com o fim da grande potência socialista, quase todos os países que viviam sob sua zona de influência passaram a adotar a economia de mercado. Apenas dois países ainda insistem em manter o antigo modelo baseado na planificação econômica: Cuba e Coréia do Norte. Se a história fosse mais generosa, se esses países fossem governados por pessoas menos teimosas, fanáticas, egoístas e tirânicas, provavelmente a situação seria bem diferente. Mas, por caprichos da história, essas nações estão congeladas no tempo. No caso da Coréia do Norte, eu diria até que o país regrediu à Idade Média. Pode soar meio clichê, mas, na vida, todos nós, pessoas ou nações, estamos submetidos à chancela do imponderável.

Vejamos outro exemplo. Na América Latina, nos anos 1970, quase todas as nações sucumbiram a ditaduras militares. No Chile, durante a ditadura de Augusto Pinochet, um seleto grupo de alunos partiu rumo aos Estados Unidos para estudar economia na prestigiosa Universidade de Chicago, um importante centro difusor de idéias liberais. De volta ao Chile, os chamados “Chicago boys”, com apoio de um ditador mão-de-ferro, passaram a implementar reformas (neo)liberais que resultaram no chamado “Milagre do Chile”. Essas reformas liberais somente seriam implementadas no Reino Unido uma década mais tarde. E, no Brasil, somente nos anos 1990. Atualmente, o Chile é uma das nações mais prósperas da América do Sul. Agora, pensem comigo, Pinochet era chileno, mas poderia ter nascido na Argentina, no Brasil, na Venezuela. Mas, por vontade do destino (ou da história), nasceu no Chile. Mais um exemplo de como um determinado fato (histórico?) pode mudar o rumo de uma nação.

Finalmente, chegamos ao terceiro aspecto: ideologia. Em seu famoso livro, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, o sociólogo alemão Max Weber nos mostra como a religião protestante revolucionou a forma de pensar dos indivíduos e abriu espaço para o desenvolvimento do capitalismo. A teologia protestante conferia ao trabalho um valor religioso. O senso de dever e disciplina, próprio dos monges, passa a ser exigido de todo cristão na execução de suas tarefas da vida quotidiana. O protestantismo liberta o capitalista do opróbrio moral imposto pela igreja católica medieval e transforma em virtudes características que eram até então vistas como simples motivações interesseiras. Essa visão de mundo favoreceu inúmeras nações. Por outro lado, países que recusaram o livre mercado e aderiram a utopias socialistas colheram morte, sofrimento e pobreza. Muçulmanos fundamentalistas, por sua vez, ao recusarem aceitar as instituições ocidentais que geraram riqueza em tantas partes do mundo, se afundam cada vez mais no obscurantismo medieval.

Meus caros leitores, esse breve ensaio não tem por objetivo esgotar a discussão acerca do desenvolvimento econômico. Longe disso. Meu objetivo aqui foi simplesmente analisar essa questão por três óticas distintas. Se você estudar como nações prósperas (Cingapura, Hong Kong e Coréia do Sul) chegaram lá e como nações falidas (Afeganistão, Somália e Paquistão) não chegaram, verá que esses três elementos (geografia, história e ideologia) estão sempre, ou quase sempre, presentes.

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