sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Você é de direita ou de esquerda?

Quando a apresentadora Hebe Camargo morreu, foi ao ar uma reportagem mostrando como era sua casa e como ela vivia. Acho que todo mundo sabe que Hebe gostava de luxo. Entre muitos objetos luxuosos, um me chamou a atenção. Hebe tinha um telefone cravado de diamantes. Aquilo devia valer uma fortuna. Na minha cabeça, e provavelmente nas de várias pessoas que estavam assistindo à reportagem, veio uma pergunta: é justo uma pessoa viver em meio a tanta riqueza em um país repleto de miseráveis? E se eu considerar injusto, significa que eu sou de esquerda? Mas ser de esquerda não significa apoiar as safadezas do PT, a ditadura em Cuba e a Revolução Bolivariana na Venezuela? Será que é possível ser a favor de uma distribuição mais justa da renda sem apoiar essas idéias ultrapassadas? Bem, vamos tentar responder a essas questões.

Direita ou esquerda? Como você se classifica?

O que significa ser de esquerda ou de direita? Existem várias interpretações sobre esse tema. Eu posso dizer que esquerda é quem está do lado dos pobres e direita é quem está do lado dos ricos. Quem entende as coisas dessa forma tem uma tendência a ser no mínimo de centro esquerda. Esquerdista é um sujeito bom, que pensa no próximo e que sente compaixão. Já o direitista é um sujeito mau, ambicioso, egoísta e inescrupuloso. Jesus Cristo seria de esquerda, mas Stalin seria de direita. Stalin de direita? Espera aí. Acho que essa interpretação não está muito boa. Vamos tentar outra.

A esquerda representa os interesses da classe trabalhadora e a direita representa os interesses dos capitalistas. Melhorou, conseguimos tirar Stalin da direita e jogá-lo para a esquerda. Muito bem. Mas será que a classe trabalhadora em Cuba está contente com a ditadura dos irmãos Castro? Ditaduras comunistas (de esquerda) conseguiram melhorar o padrão de vida dos trabalhadores? Os operários que se levantaram contra o governo e derrubaram o comunismo na antiga União Soviética eram de direita ou de esquerda? Parece que essa interpretação é meio confusa. Vamos partir para outra então.

A esquerda quer mais Estado e menos mercado. A direita quer mais mercado e menos Estado. Isso significa que, se eu sou de esquerda, eu sou contra as privatizações. Ser de esquerda significa querer um Estado cada vez maior, mais inchado e inevitavelmente mais corrupto e ineficiente. Ou seja, todo esquerdista é burro. Como eu não sou burro, vou ser de direita. Mas eu sou contra certas injustiças de uma economia de mercado e sou favorável a políticas de inclusão social. Eu não me sinto um cara de direita. Essa interpretação também não está me agradando. Será que tem mais alguma? Há mais uma ainda. E essa tem de funcionar, pois é a última.

A esquerda está disposta a sacrificar a liberdade para haver mais igualdade. A direita não se dispõe a esse sacrifício. Essa definição é um pouco mais complexa. Vamos pensar. Existe alguma incompatibilidade entre liberdade e igualdade? Sim, existe. Nós, seres humanos, não somos insetos gregários. Nós não somos todos iguais ou quase iguais como formigas, baratas ou cupins. Há uma diversidade enorme dentro da espécie humana. Algumas pessoas são mais inteligentes, bonitas, talentosas, criativas etc. Outras pessoas são justamente o oposto. A natureza foi cruel na hora de distribuir essas qualidades.

Logicamente que as pessoas mais inteligentes, bonitas, talentosas e criativas terão mais facilidade para ganhar dinheiro em uma economia capitalista que as pessoas sem essas qualidades. Ainda que todos partam de um mesmo ponto de largada, algumas pessoas chegarão mais longe, terão mais êxito e ganharão mais dinheiro ao longo da vida que outras. Isso é inevitável.

Se o governo quiser reduzir a disparidade no resultado final, terá de agir como Robin Hood. Ou seja, tirar dos ricos para dar aos pobres. Mas essa política de redução de desigualdades não é autoritária? Em outras palavras, ela não diminui a liberdade dos mais bem sucedidos? Sim, com certeza. Ninguém paga imposto porque gosta, paga porque é obrigado. Se o governo quiser reduzir desigualdades, terá de usar seu poder de coerção. Quanto mais igualdade o governo promove, mais ele reduz a liberdade individual.  De acordo com essa interpretação, quanto mais eu apoio políticas que promovam igualdade reduzindo liberdade, mais de esquerda eu sou. Quanto mais eu rejeito esse tipo de política, mais eu me enquadro como uma pessoa de direita.

Os esquerdistas argumentam que uma sociedade mais igualitária é mais justa porque, na loteria da vida, todos gostaríamos de ter sido premiados pela mãe natureza. Mas como a natureza não costuma ser justa e premia as pessoas de forma muito desigual, o governo, mediante política sociais, deve aparar as arestas, reduzindo os extremos.

Por exemplo, Hebe Camargo, quando jovem, era uma mulher muito bonita. Ela também era cantora, mas acredito que não tinha nenhum talento muito especial nesse quesito. Posteriormente, tornou-se apresentadora de televisão. Com sua simpatia e um forte carisma pessoal, Hebe conseguiu conquistar o coração de milhões de fãs por todo Brasil. Carisma significa fãs, que significam audiência, que significa dinheiro. Hebe ganhou muito dinheiro, ficou milionária e passou a viver bem ao seu estilo, cercada de luxo.

Acho que mulheres talentosas como Hebe despertam inveja em todas ou quase todas outras mulheres. Assim como um jogador de futebol como Cristiano Ronaldo desperta a inveja de muitos homens. Todos nós gostaríamos de ter nascido com grandes qualidades. Mas poucos, pouquíssimos, têm esse privilégio.

Voltemos a nossa questão inicial. É justo que, em um país com tanta miséria, algumas pessoas vivam cercadas de luxo? Eu já refleti muito sobre esse assunto. Minha conclusão pessoal é que isso não é justo e o governo deve sim reduzir um pouco as arestas. Para isso, o governo deve cobrar impostos progressivos dos mais ricos. Ou seja, quem é mais rico paga proporcionalmente mais. E com esses recursos aliviar os sofrimentos causados pela pobreza extrema. Vejam bem, aparar arestas é muito diferente de promover uma igualdade absoluta. Essa idéia eu não defendo, nem nunca defendi.

Será que eu devo ser enquadrado como esquerdista por pensar assim? Bem, tirem vocês suas conclusões. Particularmente, não gosto desses rótulos porque estão eivados de preconceitos. Não me considero nem de esquerda, nem de direita. Meu posicionamento é o seguinte: não acredito que uma sociedade com desigualdades extremas seja salutar. Por outro lado, repudio com veemência qualquer tipo de autoritarismo. Acho que acima de tudo temos de ter bom senso. Temos de saber dosar liberdade com igualdade. Como se costuma dizer, a diferença entre o remédio e o veneno pode estar na dose.

5 comentários:

  1. Numa nação livre e independente, é justo sim que umas tenham mais luxo do que outras. Pois, são pessoas que trabalham com esse foco, objetivo de riqueza, e de prosperidade, Torço para que essas pessoas consigam inspirar e orientar outras que queiram esse estilo de vida. Essa é a minha opinião.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Gostei do seu comentário e concordo com ele. Mas você não acha que algum tipo de política deve ser implementada para erradicar a pobreza extrema? Se você puder, leia esse post. http://economiapolitica2015.blogspot.com.br/2015/01/alguem-quer-comprar-mansao-de-chiquinho.html

      Excluir
  2. Não temos esta de direita e esquerda, é uma divisão que só traz vantagens para os socialistas. Assim eles se colocam como proprietários das virtudes e colocam todo o resto a sua direita.

    ResponderExcluir
  3. E você, se considerarmos dois vetores e respectivos gradientes, o da liberdade individual e liberdade econômica, onde se encontra?

    Você é libertário, de esquerda, de direita ou tem vocação para ser totalitário? Se for de direita ou esquerda, esteja certo, não se sustenta, pois em toda a história da humanidade convergiram para o totalitarismo.

    http://www.diagramadenolan.com.br/?locale=pt

    ResponderExcluir
  4. Faço de suas palavras, as minhas :)
    Professor, estou trabalhando no tema imposto progressivo para minha monografia de economia. O Senhor teria algumas indicações de leituras? Notei que cita o imposto progressivo em muitos textos.
    Agradeço muito a ajuda!

    ResponderExcluir