quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Grécia, austeridade e ideologia

É incrível a capacidade que as pessoas têm de fazer confusão até mesmo com coisas bem simples de entender. A Grécia está numa situação financeira complicada. Muito complicada. De quem é a culpa? Do governo grego, das políticas de austeridade, dos bancos internacionais, do capitalismo de espoliação ou de sei lá de quem. Vamos tentar compreender.

Syriza: a extrema esquerda chega ao poder

Suponhamos que Joaquim (um sujeito comum) entre em uma agência bancária e faça um empréstimo para comprar uma bicicleta. Depois de pagar algumas prestações, Joaquim conclui que não tem como pagar o que deve, está quebrado. De quem é a culpa? De Joaquim, do banco, do capitalismo ou da bicicleta? Acho que todos concordamos que a culpa é de Joaquim. Ninguém o obrigou a entrar na agência e fazer o empréstimo. Contudo, vou um pouco adiante. Eu diria que, além de Joaquim, o banco teve parte da responsabilidade, pois avaliou mal a capacidade de pagamento de seu cliente.

Se Joaquim der calote, quem sai perdendo e quem sai ganhando? Joaquim sai perdendo, pois não terá mais acesso a crédito em nenhuma instituição financeira. O banco também sai perdendo pois teve prejuízo na operação. Como ambos perdem e ninguém ganha nada, o melhor, tanto para Joaquim como para o banco, seria renegociar a dívida. Esse mesmo raciocínio pode ser estendido para uma empresa. Acho que todos vão concordar que sim. O que eu gostaria de entender é por que, quando o agente que contrai a dívida passa a ser o governo, algumas pessoas entram em um delírio esquizofrênico e começam a desenvolver teorias conspiratórias para explicar o mesmo problema.

Quando as nações da zona do euro passaram a utilizar uma mesma moeda, ocorreram dois erros de percepção. Os países mais pobres passaram a se sentir ricos e começaram a gastar além da conta. Por outro lado, os agentes financeiros também erraram em suas avaliações. Por exemplo, títulos públicos emitidos pela Alemanha e pela Grécia passaram a pagar remunerações muito próximas, como se os riscos fossem quase iguais. Porém a situação fiscal na Alemanha era muito melhor que a da Grécia. Resumindo a história, a Grécia contraiu uma dívida gigantesca e agora não tem como pagar. Não vejo outra saída que não seja a renegociação.

Onde está a questão ideológica nessa confusão em que a Grécia se meteu? Por mais que eu me esforce, não consigo enxergar. Por outro lado, o filósofo e colunista da Folha de São Paulo, Vladimir Safatle, parece estar saltitando de alegria com a vitória do partido de extrema esquerda Syriza nas eleições gregas, ocorridas no último domingo, 25 de janeiro. Segundo Safatle, a vitória do Syriza é a expressão do sentimento de recusa ao capitalismo de espoliação e à acumulação rentista. O colunista argumenta ainda que bancos internacionais extorquem países que entram em rota de falência (Luzes, enfim - 27/01/2015).

Voltando ao caso de Joaquim e da bicicleta. Teria algum resquício de lógica se eu dissesse que a dívida impagável de Joaquim é de responsabilidade do capitalismo de espoliação e da acumulação rentista? Tem algum sentido eu dizer que bancos extorquem pessoas que entram em rota de falência? Por que esses argumentos que não fazem nenhum sentido quando nos referimos a pessoas (ou empresas) teria sentido ao nos referirmos a países? Acho que somente o colunista da Folha e seus seguidores conseguem enxergar alguma lógica nessa sandice toda.

Intelectuais de esquerda têm o vício de enxergar qualquer fato pela lente da ideologia. Responsabilidade fiscal não tem viés ideológico. Um governo que gasta além da sua capacidade de pagamento vai se endividar. Não importa se o governo é de esquerda ou de direita. Governos endividados têm de apertar o cinto e fazer um esforço proporcional ao tamanho da dívida. Quando a dívida é impagável, melhor tentar uma renegociação. Nada disso tem a ver com ideologia. Porém a esquerda acéfala do nosso país consegue enxergar ideologia, luta de classes, espoliação capitalista até assistindo aos Teletubbies. E é com essa esquerda que temos de tentar dialogar. Que triste sina a nossa.

3 comentários:

  1. Ótimo texto. Contudo lógica e responsabilidade individual não são aceitas pela esquerda. O que importa é a ideologia. No caso, segundo a visão socialista de mundo, o Joaquim seria um pobre coitado pressionado por uma cultura consumista. Assim, teríamos que entender a subjetividade da situação em decorrência de uma coletividade contaminada por uma visão capitalista de mundo e bla bla blá....

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  2. Em seu texto há uma questão fundamental, a bicicleta deve ser vendida e as contas pagas. Ainda no seu texto vemos que foi um processo perde-perde, pois o banco também teve que reconduzir seus fluxos. Perdeu, pois teve que renegociar dívidas, ou mesmo amargar contenciosos jurídicos.

    Um processo ganha-ganha se daria somente se os gregos viessem a vender seus ativos, negociarem as dívidas e se concentrassem em aperfeiçoar o livre mercado, pois é somente lá que se assegura o desenvolvimento de uma nação, justiça e paz social. Tal qual o Brasil, a Grécia deve se concentrar em fazer parte do ABCDE/TZ, ter o Heritage Index como referencial.

    http://www.heritage.org/index/country/greece

    E note que não estamos muito afastados dela, razão pela qual os efeitos são aqui também perversos, basta olhar os nossos indicadores sociais, ambientais e econômicos.

    http://www.heritage.org/index/country/brazil

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